As estatísticas alertam para uma situação perigosa: o Brasil já tem mais de um milhão de obesos mórbidos. Somente em Curitiba, nos últimos cinco anos, houve um aumento de 15,3% no número de adultos com sobrepeso. A cidade é apontada pelo Ministério da Saúde como a terceira capital com o maior número de pessoas obesas no país.
Com o objetivo de alertar a população sobre os riscos da obesidade mórbida, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica (SBCB) realiza em Curitiba, hoje e amanhã, uma campanha de orientação. De acordo com o presidente da SBCB, João Batista Marchesini, o objetivo é esclarecer sobre tratamentos, em que casos a cirurgia é indicada e como a obesidade pode ser combatida. Marchesini falou à Gazeta do Povo sobre a cirurgia, indicada no tratamento da obesidade mórbida.
Em que casos a cirurgia bariátrica deve ser feita?
A cirurgia é indicada quando a obesidade é considerada doença e vem acompanhada de uma série de comorbidades, como diabete, pressão alta, colesterol elevado, caracterizando o que a gente chama de síndrome plurimetabólica. Nós recomendamos operar o paciente que já fez tratamento por um período de pelo menos dois anos, sem resultados. Em muitos casos, a obesidade é de cunho genético, ou seja, a pessoa está programada para ser obesa. E aí não adianta fazer regime, ela voltará a engordar. Como não há como alterar essa programação, nós focamos no local onde o alimento é aproveitado, podendo optar por cirurgias que limitam o volume de comida ou que limitam a absorção dos alimentos.
E como é feita essa escolha?
A técnica vai ser escolhida de acordo com o perfil do paciente e do cirugião. Se o paciente não se importa em vomitar quando comer demais, a opção vai ser por técnicas restritivas. Para o paciente que abomina a idéia de vomitar, mas se adapta melhor à idéia de ter diarréia quando abusar, a recomendação é para técnicas que mexem na absorção. A escolha é feita de acordo com o comportamento alimentar do paciente. De uma maneira ou de outra ele vai sofrer efeitos colaterais se cometer abusos: é o preço que ele paga por comer demais.
Quem pode fazer a cirurgia? Há algum tipo de restrição?
Sim, a idade é uma delas. A recomendação é não operar menores de 18 anos. Em alguns casos bem estudados a cirurgia é feita em adolescentes de 16 anos, mas nunca em menores dessa idade. Também não se operam maiores de 70 anos. Pacientes com hábitos alcoólicos ou que sofram de doenças psiquiátricas não-tratadas, como depressão e compulsão, também não devem fazer a cirurgia sem buscar tratamento antes. Também é importante o acompanhamento de nutricionistas, fisioterapeutas e psiquiatras. O apoio psicológico é importante na parte inicial para avaliação do comportamento do paciente e também no pós-operatório, se houver indicação.
Que tipo de cuidados o paciente deverá ter após a cirurgia?
Ele terá de fazer exercícios e ficar sob cuidados de seu cirurgião até que seu peso se estabilize. Dependendo do tipo de cirurgia, haverá alimentos que ele não poderá ingerir. Se for uma operação que mexe mais no intestino, ele vai ter de evitar gorduras. Se a cirurgia mexer mais no estômago, ele terá de diminuir a quantidade de carboidratos.
Por que em alguns casos a pessoa engorda novamente após a cirurgia?
A cirurgia é uma limitação, ou do volume de comida ou da absorção dos nutrientes. Mas a pessoa pode enganar a operação. Se a cirurgia foi feita para limitar o volume dos alimentos, basta o paciente ingerir líquidos calóricos que vai engordar do mesmo jeito. Se a cirurgia tolera gordura, basta ele sair do açúcar e ir para a gordura. Por isso é tão importante o tratamento de transtornos alimentares antes da cirurgia. Em média, de cada 100 pacientes operados, oito voltam a engordar.
Quais os riscos desses procedimentos?
É uma cirurgia delicada. A mortalidade pode chegar a 1,5% dos casos. Por isso a operação deve ser feita somente quando houver indicação. Fazer a cirurgia da obesidade somente por razões estéticas ainda não é plenamente aceito. A indicação existe somente quando a obesidade for considerada doença.
Muitos pacientes deixam de fazer a cirurgia por medo?
Sim, ter medo é normal. Quem não tem medo de cirurgia possivelmente está fazendo um mau conceito da operação, está sendo mal-informado. Todos devem ter medo de cirurgia, mas esse medo não pode ser maior que o medo da doença. A doença é mais perigosa que a operação. O Hospital das Clínicas de São Paulo fez uma análise da mortalidade dos doentes que estavam na fila de espera. Morreu mais gente esperando do que fazendo a cirurgia.
O que explicaria o número cada vez maior de crianças obesas?
Este é o resultado da combinação de maus hábitos alimentares e vida sedentária. A criança passa o dia sentada na frente do computador, do videogame, não vai mais jogar futebol no quintal, não come frutas. Repare que as campanhas de prevenção à obesidade infantil focam principalmente a educação alimentar. A cirurgia não é recomendada em crianças porque na fase pré-adolescente ela pode trazer prejuízos até maiores do que a própria obesidade. O ideal é esperar os 18 anos. Antes disso, o corpo ainda está em desenvolvimento, pode ser que essa criança emagreça no futuro e nem precise de cirurgia.
As pessoas obesas sofrem muito preconceito?
Até mesmo no mercado de trabalho o obeso é considerado uma pessoa de menor produtividade. A aparência física conta muito hoje em dia. O obeso é segregado, assim como outras minorias, mas não é protegido legalmente. Enquanto é crime você falar qualquer coisa sobre a cor de uma pessoa, você pode chamar qualquer um de gordo.
Fonte: http://www.gazetadopovo.com.br/saude

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