quarta-feira, 23 de setembro de 2015

A OBESIDADE É UMA DOENÇA INCURÁVEL. POR QUE PUNIR O DOENTE?


Seria o hábito de comer em excesso mais viciante do que crack? É difícil comparar taxas de dependência, ou produzir uma definição clara e válida para todas as substâncias e comportamentos. Mas considere este contraste brutal: entre as pessoas que usam crack, 10% a 20% se tornam viciadas; segundo estudo realizado com 176 mil pessoas obesas ao longo de nove anos, 98,3% dos homens e 97,8% das mulheres não conseguiram voltar a um peso saudável. Quando se começa a comer descontroladamente, parece quase impossível parar.

Um artigo publicado na revista Neuroscience & Biobehavioral Reviews sugeriu que "vício em comida" é uma descrição menos precisa dessa condição que "vício em comer". Não há evidências de que as pessoas com tendência a comer demais se tornem dependentes de um único ingrediente; ao contrário, tendem a buscar uma variedade de alimentos altamente palatáveis e com alta densidade calórica, como tantos que hoje nos cercam.

A ativação de sistemas de recompensa no cérebro e a perda do controle de impulsos são semelhantes aos que ocorrem na dependência de drogas. Mas o vício em comer parece mais potente. Como observa o artigo, em experimentos de laboratório, a maioria dos ratos "prefere ser recompensada por um doce que por cocaína".

Como explica um artigo publicado na Lancet este ano, uma vez que um indíviduo se torna obeso, mudanças biológicas o aprisionam nesta condição. As células de gordura proliferam. O cérebro se habitua aos sinais de dopamina (o caminho da recompensa), levando-o a aumentar o consumo.

Se você tenta perder peso, o corpo percebe-se em privação, e adaptações poderosas (como um aumento da eficiência metabólica) tentar jogá-lo de volta ao estado anterior. As pessoas que conseguem, contra todas as probabilidades, voltar a um peso normal, devem consumir menos 300 calorias por dia do que quem nunca foi obeso, se não quiserem ganhar peso novamente. "Uma vez estabelecida a obesidade (...) o peso corporal parece tornar-se um carimbo biológico". Quanto mais peso se perde, mais forte é a pressão biológica para voltar à forma excessiva anterior.

Os pesquisadores acreditam que "estas adaptações biológicas irão, muitas vezes, persistir indefinidamente": em outras palavras, para permanecer magro, quem já é obeso precisará fazer uma dieta rigorosa para o resto da vida. O melhor que se pode esperar não é uma cura através de dieta, mas uma "obesidade em remissão". O único tratamento eficaz, de longo prazo, para a obesidade atualmente disponível, segundo o artigo, é a cirurgia bariátrica. Que pode causar, no entanto, uma série de complicações.

GORDOFOBIA

A gordofobia é pior do que se imagina: outro artigo apontou que, quanto mais preocupadas com o peso, mais as pessoas tendem a exagerar na comida. O estresse induzido pela preocupação com o peso também dispara o desejo de buscar o conforto na comida. Como a jornalista do The Guardian Sarah Boseley aponta em seu livro The Shape we’re in (sem tradução em português), "a indústria da dieta... é uma das maiores fraudes dos dias de hoje". Para os obesos, a balança terminará virando o jogo depois de vitórias temporárias contra ela.

Pessoas com sobrepeso (em outras palavras, que têm um índice de massa corporal de 25 a 30) parecem não sofrer das mesmas adaptações bioquímicas: sua compleição física não é um "carimbo". Para estes, alterações de dieta e exercícios físicos serão, provavelmente, eficazes. Mas não se deve dar falsas esperanças às pessoas obesas.

A tarefa crucial é cuidar das crianças antes que elas sucumbam a esse vício. Além de ajudar e aconselhar os pais, isso certamente requer uma grande mudança no que os cientistas chamam de "ambiente obesogênico" (alimentos e bebidas de alta concentração calórica, bem como a propaganda e as embalagens que os tornam mais atraentes). A menos que as crianças sejam afastadas dos excessos desde cedo, estarão suscetíveis a esta prisão que pode durar a vida toda.

Fonte CARTA MAIOR

Nenhum comentário:

Postar um comentário