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segunda-feira, 13 de junho de 2016

SAÚDE MENTAL NÃO TEM IDADE!

Ficar triste, brigar com os pais, ter um certo medo do escuro, não querer ir pra escola um dia, se sentir irritado ou desatento de vez em quando é normal. Essas coisas acontecem com todo mundo, e podem ter diversos motivos: uma nota baixa, a derrota do seu time, uma noite mal dormida, um amor não correspondido... Saber lidar com esses sentimentos e superá-los é importante e até mesmo saudável: faz parte do processo de amadurecimento de todos nós.

Mas em alguns casos o problema não passa, e começa a ter impactos negativos na vida familiar, escolar e social da criança ou adolescente, afetando seu desenvolvimento. Muitas vezes, os adultos não dão bola, acham que depressão ou qualquer outro tipo de problema psiquiátrico é coisa de gente mais velha. Mas não é bem assim. Segundo Rossano Cabral Lima, psiquiatra infanto-juvenil e doutor em Saúde Coletiva pela UERJ, de 10 a 20% das crianças e adolescentes sofrem com algum tipo de transtorno psiquiátrico. 

Na infância, os mais comuns são os transtornos emocionais ou internalizantes (quadros fóbico-ansiosos e depressivos) e os transtornos disruptivos ou externalizantes (hiperatividade e transtornos de conduta). Há também os quadros autistas, que são graves, embora menos comuns.

Entre os adolescentes, há um aumento nos quadros depressivos, além dos problemas envolvendo uso de álcool e outras drogas, e dos transtornos alimentares (anorexia e bulimia). É nessa época que surgem situações mais graves, embora menos frequentes, como a esquizofrenia e os transtornos bipolares do humor.

Mistérios da mente à parte, a presença de transtorno mental na mãe, condições socioeconômicas desfavoráveis, morar em comunidades perigosas, ambiente doméstico violento, punições físicas às crianças e dificuldades no ambiente escolar são fatores que contribuem para o desenvolvimento de problemas psiquiátricos infanto-juvenis.


Detectando o problema

Como praticamente todos os tipos de transtornos possuem formas leves, muitas vezes é difícil identificar a diferença entre o normal e o problemático. “Os pais devem estar atentos, manter um canal de comunicação aberto com a criança ou adolescente e conversar regularmente com os professores, para avaliar se a situação detectada em casa também está interferindo no desempenho escolar”, recomendou o psiquiatra.

Quando percebem que algo vai errado com a criança, mesmo que ainda não existam impactos negativos muito evidentes, os pais já podem procurar um especialista, geralmente um psiquiatra ou psicólogo. “A intervenção precoce pode aliviar o problema em uma fase de menor gravidade, melhorando o prognóstico. Além disso, nessas fases iniciais, muitas vezes o atendimento e orientação dos pais pode ser suficiente para que o problema seja superado”, orientou Rossano. Mas ele também faz um alerta: “o risco de levar a criança a um psiquiatra quando não há uma necessidade clara disso é o de 'medicalizar' a situação, ou seja, privilegiar a abordagem médica em detrimento das demais abordagens, incluindo a prescrição apressada e desnecessária de remédios”.

Em relação à saúde mental, a noção de cura não é muito apropriada. Para isso, seria preciso conhecer todos os fatores envolvidos no problema. E entender a cabeça dos outros não é mesmo fácil. Mas há tratamentos para todos os casos, que conseguem atenuar o mal-estar e favorecer um desenvolvimento mais saudável.

– Os tratamentos envolvem o manejo psicológico da criança ou adolescente, o atendimento dos pais ou outros responsáveis, o uso de medicamentos e intervenções psicossociais, como por exemplo o encaminhamento para escolas especiais. O ideal é que essas estratégias sejam articuladas umas com as outras, e que o tratamento envolva diferentes profissionais – psicólogos, médicos psiquiatras, assistentes sociais, etc. – explicou Rossano.

Consultoria: Rossano Cabral Lima, psiquiatra infanto-juvenil, doutor em saúde coletiva (IMS/UERJ), professor visitante do NUPPSAM/IPUB/UFRJ.